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segunda-feira, 14 de junho de 2010

A lógica dos estágios nacionais! Artigo de opinião de Ricardo Fernandes

Caros amigos!
Em primeiro lugar gostaria de realçar, que este meu artigo vem na sequência de um artigo publicado neste blog, no qual, o meu nome é referido citando um comentário por mim realizado numa outra rede social. Nesse sentido, apenas pretendo esclarecer os leitores acerca das razões dos meus comentários. Este artigo não tem como finalidade dar lições de moral a ninguém, sendo, apenas e só uma opinião pessoal baseada na minha experiência, nos meus conhecimentos, convicções e “visões” sobre a lógica dos estágios nacionais. Gostaria ainda de deixar bem claro que, este meu artigo de opinião pretende puramente ser construtivo e não tem qualquer intenção directa ou indirecta de atingir ou “deitar abaixo” quem quer que seja, incluindo, obviamente o actual departamento técnico da FPB. Apesar, de estar a trabalhar no estrangeiro, sou um cidadão Português que dedicou muito anos de vida quer como jogador quer como treinador ao Badminton Português e que deseja o melhor para o seu país.
Em segundo lugar, gostaria de dizer que a experiência de um treinador é importante, mas, não é crucial como o conhecimento científico… Para além disso, especialmente, nas modalidades individuais (não tanto nas colectivas), em algumas situações específicas, ter sido jogador de nível internacional e ter vivido na 1ª pessoa situações semelhantes é realmente uma grande vantagem para perceber a “essência” de algumas questões específicas como aquela que está aqui em causa…
Relativamente ao facto de se expor atletas durante quase dois meses consecutivos em estágio, eu considero um verdadeiro teste à capacidade de resistência mental dos atletas! Na minha opinião, os estágios são extremamente importantes e, são sem qualquer dúvida, fundamentais para a evolução dos atletas nas diferentes modalidades, mas, certamente, programados de outra forma, com outros objectivos e que não coloquem em causa a nem a “saúde mental” nem a “saúde física” dos atletas , principalmente, o risco de os atletas poderem a vir a atingir precocemente um desgaste mental, isto, para além do aumento da probabilidade do aparecimento de lesões ainda antes da época se iniciar! Há que existir ainda, alguma sensibilidade em relação às questões sócio - culturais dos jogadores portugueses que, podem ser seriamente afectadas caso não sejam respeitadas ou levadas em conta, entre as quais destaco, as questões familiares, escolares/académicas e pessoais entre outras. É realmente, preciso ter-se algum cuidado e algum conhecimento científico sobre Ciências do Desporto e dos princípios da Metodologia do Treino Desportivo, assim como, sobre Psicologia e Pedagogia do Desporto, no caso, de pretender-se planear um estágio com este “calibre". Há que ter consciência do elevado risco de sobrecarga de treino ao nível físico e principalmente psicológico e ainda o risco de efeitos “nefastos” e contrários aos desejados, que dai podem resultar como consequência.
A saturação mental e a desmotivação são dois dos factores que estão mais “intimamente” ligados ao abandono da prática desportiva, assim como, a sobrecarga de treino está relacionada com aumento drástico do aparecimento de lesões e ainda a possíveis efeitos adversos do impacto na performance dos jogadores.
Não se deve de forma alguma confundir ou cair no erro de tentar comparar os estágios nacionais com os estágios internacionais. Nem tão pouco comparar mentalidades e culturas de diferentes populações, como por exemplo, entre Asiáticos e Portugueses, por razões mais que óbvias. O que se passa nas Academias internacionais e nos Centros Internacionais de Treino de Alto Rendimento é uma situação completamente diferente comparativamente aos estágios nacionais! Nos estágios internacionais os jogadores na maioria dos casos vão viver para um outro país, para treinarem num outro ambiente, num outro contexto e com outros jogadores! É, sobretudo, uma opção de vida por parte de alguns atletas que são fortemente apoiados e são devidamente compensados a todos os níveis! Estes atletas procuram essencialmente outras formas de treinos, a experimentação de outras filosofias, metodologias de treino, sistemas de treino e a variação de parceiros de treino, o que é muito importante, porque, para além de permitir a fantástica experiência de treinar e competir com jogadores com estilos, tipos de jogo, técnicas, tácticas, formas de estar e mentalidades diferentes, permite manter uma elevada motivação dos jogadores.
Por outro lado, a mudança de ambiente e o diferente contexto do treino, também, é um outro factor muito importante, para manter os jogadores motivados e evitar o risco de saturação mental. Estas são algumas das principais razões pelo qual os estágios internacionais não são comparáveis aos nacionais e são considerados eventos muito desejados por praticamente todos os jogadores e que por razões atrás referidas, podem ser mais prolongados no tempo, uma vez que o risco do desgaste psicológico é nitidamente inferior.
O perigo da realização de estágios nacionais demasiadamente prolongados no tempo, está relacionado principalmente com o facto de treinar-se com os mesmos jogadores no mesmo ambiente e num mesmo contexto, aumentando, assim, o risco dos atletas ao fim de algum tempo começarem a “fartarem-se” uns dos outros ao ponto de nem se poderem ver e ainda acabarem o estágio saturados do Badminton. Por outro lado, existe o perigo de os atletas ficarem com “aversão” a estágios no futuro e criar-se um ambiente negativo! É extremamente importante, que os jogadores participem nestas actividades por motivação, com prazer, alegria e gosto e não por obrigação ou à força, com o medo de possíveis sanções. A verdade, é que nem nas outras modalidades profissionais onde alguns atletas até ganham milhares e alguns até milhões de euros, como por exemplo o Futebol, é implementado este tipo de “super estágios”, exactamente, para evitar a saturação mental dos atletas e sobrecarga de treino, isto, claro está, com o objectivo de mantê-los motivados constantemente. Dai, optarem por estágios um pouco mais prolongados, mas, em outros países num outro ambiente e contexto.
A organização de estágios divididos em períodos limitados no tempo e para grupos de jogadores de escalões etários diferentes é na minha opinião a solução mais adequada, evitando-se, assim, um possível e perigoso desgaste mental nos jogadores, que possa os levar à desmotivação e em casos extremos ao abandono total ou parcial da modalidade. Simultâneamente, previne de alguma forma os jogadores de sobrecarga física e consequentemente o aparecimento de lesões.É também por isso, fundamental, dar-se uma especial e indispensável atenção aos processos de recuperação dos jogadores, com o objectivo de os manter num equilíbrio óptimo entre a componente física e a mental.
Na minha opinião, para uma possível boa rentabilização do CAR, para além da realização dos estágios para os jogadores das diferentes selecções nacionais e atletas de Alto Rendimento realizados em períodos limitados no tempo, poderiam ser organizados campos de férias, "festivais de Badminton" ou estágios “especiais” , no qual seriam convidados jovens jogadores, que normalmente não participam nos estágios nacionais, mas, que têm algum potencial, isto, com um possível objectivo de fazer captação de "talentos" e ao mesmo tempo funcionar como um estímulo de motivação para esses atletas. Por outro lado, uma participação mais activa e efectiva de outros treinadores que, devidamente convidados poderiam colaborar nesses mesmos estágios.
Em relação à sobreposição das datas do estágio de início da próxima época organizado pela Federação Portuguesa de Badminton em relação ao estágio internacional no Algarve, no qual estou envolvido na organização, era perfeitamente previsível e esperado o desfecho! Não há razões para qualquer surpresa! Seria de estranhar era se assim não o fosse...
Para finalizar, eu gostaria de aproveitar a oportunidade, para agradecer as generosas mensagens de apoio que tenho recebido por parte de vários jogadores, treinadores e até dirigentes em relação ao trabalho que tenho desenvolvido ultimamente no estrangeiro. E ainda, agradecer também a todos aqueles treinadores Portugueses que, de uma forma directa e indirecta durante esta época, muito gentilmente sugeriram e aconselharam os seus próprios atletas a virem estagiar para Inglaterra no Centro de Rendimento no qual estou a trabalhar como treinador.

A todos o meu muito obrigado e um bem hajam!
Ricardo Fernandes

3 comentários:

Diamantino Ruivinho disse...

Estágios Promovidos pela Federação

51 dias de alegria e de aprendizagem

Ou 51 dias de obrigações, de imposições e de tristezas


O direito de opinião é sagrado e deve ser respeitado, o contributo de todos, produz seguramente um resultado mais consistente, que apenas a opinião individual de cada um de nós.

Assim sobre este assunto parece-me o seguinte:

1 – Todos os estágios de forma teórica e à primeira vista são para aplaudir, de acarinhar e para participar, não será assim?

2 – Os estágios promovidos pela Federação Portuguesa de Badminton, direccionados para os atletas dos clubes, numa fase de pré-época, não teriam e deviam, de ser planeados e planificados com os técnicos dos vários clubes?

3 – Os clubes e os seus técnicos, têm toda uma época pela frente, com objectivos definidos e interesses, que variam de clube para clube e de atleta para atleta, que não podem nem deviam ser hipotecados seja por quem for, isso foi pensado na concepção destes estágios?

4 – Nos estágios certamente estão definidos objectivos, sabem os clubes, os seus técnicos e os atletas envolvidos, quais são os objectivos destes estágios?

5 – Provavelmente a programação destes estágios, obedecem a uma calendarização de participação Internacional dos atletas envolvidos, alguém conhece essa calendarização e os objectivos dessa participação? Ou será que não existe nada disso?

6 – Os atletas acabaram agora praticamente a época desportiva, alguns deles estão ainda fortemente empenhados na sua vida escolar, têm férias programadas com os seus clubes, no respeito pelo calendário desportivo, os seus interesses familiares e sociais, estes estágios tiveram isso em atenção?


7 – Os estágios promovidos ou a promover no quadro da Federação Portuguesa de Badminton, quando não direccionados para provas especificas de participação internacional, podem ou devem, sobrepor-se à planificação e interesses dos clubes e atletas, ou pelo contrário, devem ser com estes estudados?

8 – Alguém sabe, clube, técnico ou atletas, quais são os apoios que cada um dos atletas envolvidos e convocados para estes estágios, vai ter ou tem da Federação Portuguesa de Badminton ao longo da próxima época desportiva?

9 – Quanto á possível incompatibilização dos estágios da FPB com aquele que levamos a efeito, no final de Agosto e principio de Setembro, envolvendo atletas Ingleses, Suecos e Dinamarqueses, com a participação do Prof. Ricardo Fernandes, essa incompatibilização não pode ocorrer, até porque, esse estágio visa a apresentação pública dos nossos atletas para a época 2010/2011, e conta com o contributo do nosso maior parceiro, a autarquia de Lagoa.
Qualquer tentativa de minimizar, dificultar ou impedir a participação de atletas nossos nesta iniciativa, é um péssimo contributo para a modalidade, que não permitiremos.

Conclusão

Estes estágios anunciamos pela Federação Portuguesa de Badminton, tal como foram apresentados e como estão a ser recebidos, contêm um vazio enorme, foram definidos sem qualquer capacidade de diálogo, sem se saber quais os seus objectivos e sem se saber muito bem, porque e para quê.
Estes estágios, que podiam servir para unir todos, estão a acentuar ainda mais as dúvidas e as tensões já existentes, reforçando a ideia, de que vale tudo para justificar a utilização do CAR.
Nunca é tarde para se corrigir o caminho, mas a Federação, teima em não querer acertar o passo com todos os agentes da modalidade, é pena, quando bastava dialogar em vez de impor.

P.S. As angústias que estes estágios provocam em muitos, certamente em alguns, só pelo facto de ser convocados, foram recebidos com um sorriso. O resultado dos mesmos para a modalidade veremos no futuro.

Diamantino Ruivinho

Anónimo disse...

O Artigo de Opinião do professor Ricardo Fernandes, muito bem apresentado e suficientemente esclarecedor de como devem ser tratados os estágios com atletas amadores e com estas situações poderemos observar uma imagem pouco abonatória para o badminton em Portugal, onde a grande maioria dos atletas continuam a fazer “Lazer Competitivo” … e muito poucos, a exigente e verdadeira “Competição”.
Naturalmente que esta situação é da responsabilidade dos técnicos, pois, deverão educar os jovens no seu percurso etário para a necessidade de elevarem e planearem as adequadas cargas de treino, independentemente se têm ou não pavilhões disponíveis. Outros componentes do treino, como a força, flexibilidade, resistência e a velocidade poderão ser desenvolvidos em outros espaços cobertos ou ao livre.
Uma das várias qualidades exigidas aos atletas é a vocação para treinarem muito, o que não é para todos, visto que o estilo de vida é duro, com regras a cumprir. Não é só dizer que se é atleta, pelo que cada vez mais, verifica-se, que a população juvenil não quer competir e não se quer esforçar.
Em desporto somos um país, de atletas / fenómenos, porque com muito pouca população a praticar desporto com regularidade, ao contrário por exemplo da Dinamarca, com uma população de 5,4 milhões de habitantes, mas com 75% da sua população interessada em praticar desporto, temos atletas de relevante valor internacional, mas este e outros países com forte vocação para o desporto têm governos que criam condições para que a sua população juvenil tenha uma educação e formação desportiva suficientemente bem trabalhada.
Esta comparação poderá ser perfeitamente justificável, porque não temos um desporto escolar organizado. Os grandes “clubes” serão sempre as escolas, desde que integrem uma elevada formação e uma adequada detecção de talentos, pois, conseguem reunir o maior número de possíveis praticantes federados.
Será nas escolas, que a população juvenil deverá ser sensibilizada, para uma cultura desportiva, vocacionando-a para o prazer da prática saudável.

Fernando Gouveia

joão boto disse...

Não me vou alongar mais do que aquilo que já escrevi num outro artigo de opinião, ainda bem recente sobre esta matéria. No entanto gostaria de deixar estas perguntas, que por certo não vão ter resposta:
Será que o seleccionador português Sr. Tom John concorda com estes estágios?
Ou alguém lhe quer "fazer a folha", como se diz em giria linguistica?
E o sub17, campeão nacional 2009/10, Jorge Abreu?
Foi esquecimento, foi engano na convocatória, um erro de secretaria? ou apenas não havia lugar para o melhor jogador sub17 da actualidade, porque há "rebuçadinhos" que tem que ser oferecidos em troca de votos?
Mas...há males que vêem por bem, e neste caso, o Jorge Abreu, acabou por sair ileso, no que, para muitos, se está a tornar num pesadelo estas convocatórias.

João Boto