José Bento escreveu recentemente um artigo de opinião no seu blog. Achei importante partilhar com os meus leitores este ponto de vista de alguém com 1/2 século ligado ao Badminton. Faço a transcrição integral do texto escrito por José Bento:

Verificou-se recentemente uma troca de opiniões relacionadas com a realização dos Torneios do Circuito Nacional (Não Seniores e Seniores) na Madeira. Finalmente parece que começa agora a haver uma nova fase na utilização dos blogues. Finalmente começam a surgir opiniões de outras pessoas não habituais a participar nos blogues.Finalmente as pessoas começam a compreender que devem manifestar-se sempre que tenham uma opinião não só quando discordam (e por isso há quem os apelide de “malandros da modalidade” ) mas igualmente quando acham que devem apresentar os seus argumentos e defender uma determinada posição. A divulgação de posições contraditórias nos diversos blogues e sobre qualquer tema só vem ajudar a que outros também queiram manifestar novos pontos de vista sobre o assunto. Quem vem a ganhar ou a perder com isso ? A perder, penso que ninguém, pois quem tem uma opinião formada não deixa de a ter pelo facto de a transmitir ao exterior (até eventualmente a poder mudar em face da opinião dos outros) e a identificá-la com o seu nome (coisa que infelizmente muitos ligados à modalidade ainda não o fazem mostrando por isso uma cobardia e tornando-se indesejáveis no nosso Badminton). A ganhar, acima de tudo, fica o nosso Badminton. Ninguém é dono absoluto da verdade e sabendo ouvir a opinião dos outros leva a optimizar a nossa posição. A maior parte das vezes as nossas críticas surgem incompletas ou menos justas pelo simples facto de não conhecermos as razões dos outros, embora estes por vezes também não as queiram divulgar e apresentar com clareza, receando precisamente qualquer contestação. Sempre fui da opinião que devemos, especialmente quem está a actuar como dirigente da modalidade, prestar todas as explicações e informações das suas posições, não temendo qualquer crítica. Com esta introdução aproveito desde já para manifestar a minha satisfação por ler a opinião de dois dirigentes importantes da modalidade, por sinal em simultâneo e provenientes da mesma região, neste caso a da Madeira. São eles o Dr. Horácio Gouveia, presidente da ABRAM – Associação de Badminton da Região Autónoma da Madeira e recentemente eleito Presidente da Assembleia Geral da Federação e o Cosme Berenguer, presidente da Direcção da APTB – Associação Portuguesa de Treinadores de Badminton.É altura então de manifestar a minha opinião sobre o assunto.
Deve ou não uma prova do Circuito Nacional ser realizada na Madeira ? O Circuito Nacional de Não Seniores ou de Seniores, composto por 6 provas e realizadas habitualmente em zonas diferenciadas do continente, já tem provocado algumas reacções, por vezes por se realizarem mais vezes em determinados locais em detrimento de outros, noutras alturas por se efectuarem por exemplo no Norte ou no Algarve, locais mais afastados provocando despesas maiores aos participantes dos locais opostos e agora por serem realizadas fora do continente, precisamente no Funchal, obrigando os atletas do continente a terem despesas mais elevadas para poderem participar. Há quem diga que, com esta última situação, está a ser retirada aos atletas mais uma oportunidade de competirem, considerando que este torneio de não seniores não passa de um torneio regional com alguns atletas “mais ricos” do continente. Anteriormente já tive oportunidade de me expressar no meu blogue defendendo que, havendo 6 provas, deverão estas ser distribuídas por locais estrategicamente colocados de forma a contemplar todos os atletas e zonas onde se encontrem. Assim, havendo felizmente atletas desde Famalicão até Albufeira, há a possibilidade de se fazer um torneio no Algarve e outro no Norte do país. Restando 4 torneios dá precisamente para os realizar dois deles mais no centro do país e porque não outro na Madeira, até porque lá se encontra actualmente o segundo maior número de atletas filiados (252). E defendo ainda mais, no caso concreto dos não seniores. Porque não um torneio em São Miguel ?Pelos números existentes verifica-se que a ABSM – Associação de Badminton de São Miguel tem filiados 274 atletas e presumo que grande parte não seniores. Isto partindo do princípio que todos merecem a mesma atenção por parte da Federação.
O outro lado da questão é a realidade do nosso Badminton e a incompreensível situação em que a modalidade se encontra, verificando-se assimetrias de todo o tipo, das quais destaco:
1-A Associação da Madeira e os seus clubes têm subsídios próprios que lhes permite deslocar-se ao continente várias vezes por época.
2-As Associações do Continente e a maior parte dos seus clubes filiados não têm o mínimo de condições para fazer deslocações dentro do continente (todos sabem que quando há um torneio no Algarve dificilmente os atletas do Norte participam e vice versa) quanto mais para se deslocarem à Madeira ou aos Açores.
3-No entanto na Madeira existem 252 atletas filados e nos Açores, 274, justificando por estes números a realização de uma das provas na sua região, tal como no Norte ou no Algarve têm todo o direito de ter provas realizadas na sua zona.
4-O actual sistema competitivo encontra-se “coxo” e em muitas zonas do continente um atleta só tem a possibilidade de participar nos torneios do Circuito Nacional, pois a Federação e a sua estrutura não realiza os torneios regionais e os torneios zonais que completariam verdadeiramente um conjunto de provas, o que permitiria aos clubes dividir os seus atletas consoante o seu valor e levá-los a participar, também de acordo com as suas disponibilidades económicas, aos diversos tipos de torneios que deveriam existir.
5-Assim nos 6 Torneios do Circuito Nacional deveriam especialmente participar os melhores atletas enquanto os mais fracos participariam em torneios regionais e zonais.
6-Desta forma deixava de ser encarada a “necessidade” de levar “todos” os atletas às 6 provas do Circuito e alguns argumentos passariam a ser substancialmente diferentes.
7-Uma das possibilidades para resolver esta situação seria a Federação atribuir um subsídio especial a alguns dos melhores atletas do continente para se deslocarem às Ilhas, o que iria trazer bastantes problemas (económicos, de organização e de controlo).
8-Outra possibilidade seria a de alargar de 6 para 8 provas o Circuito Nacional de forma a compensar os atletas do continente que não teriam possibilidade de ir às Ilhas reduzindo-lhes a participação para apenas 4 torneios, mas prejudicando os atletas das Ilhas em se deslocarem mais duas vezes ao continente agravando o que já se passa actualmente e aumentando as suas despesas.
Só por estas razões e haveria muitas mais a ser consideradas se justifica, no meu entender, a urgente necessidade de completar e rever o actual sistema competitivo português. Já para não falar na triste situação que são os actuais campeonatos de equipas dos vários escalões, com um número ridículo de inscrições. E onde, nos seniores, se verifica que cada vez mais os clubes da Madeira estão a utilizar atletas que se encontram a viver no continente, o que, dado possuírem condições económicas substancialmente superiores à grande maioria dos clubes do continente, conseguem oferecer condições bem melhores para que esses bons atletas passem a filiar-se nos seus clubes, em vez de nos clubes e locais onde residem e até treinam. Outro aspecto e talvez um dos mais importantes e que não vi ainda apresentado é o da (não) participação de maior número de atletas da Madeira precisamente no Torneio que agora vai ser lá disputado. Pelos poucos números a que temos acesso podemos ver que de um total de 252 jogadores (não se sabe quantos são não seniores) apenas 95 se inscreveram no “seu” Campeonato. E todos os outros porque não se inscreveram? Porque embora se encontrem filiados na FPB não têm o mínimo de condições para entrar neste tipo de torneios? Ou porque não têm o mínimo interesse em participar num torneio de nível elevado, quando felizmente têm mais torneios regionais que a sua Associação Regional organiza? Aproveito para apresentar uma comparação de atletas inscritos nos dois últimos Campeonatos do Circuito para Não Seniores utilizando precisamente os deste torneio e o do Algarve onde se sabe à partida que não se inscrevem muitos atletas. Assim, utilizando a nomenclatura, tantas vezes salientada e divulgada pelo Prof. Fernando Gouveia para a “Regionalização do Badminton”, com as “suas” zonas (fixas) para todos os escalões e categorias (será que apadrinhando uma semelhante posição da Federação a qual não é transmitida infelizmente ?) temos:
Total de inscrições: Algarve: 238 (134 M e 104 F) Madeira: 132 (84 M e 48 F)
Zona 1 : Algarve: 39 ; Madeira: 0
Zona 2 : Algarve: 32 ; Madeira: 3
Zona 3 : Algarve: 72 ; Madeira: 21
Zona 4 : Algarve: 76 ; Madeira: 14
Zona 5 : Algarve: 0 ; Madeira: 0
Zona 6 : Algarve: 19 ; Madeira: 95
Muito superficialmente alguns reparos: Menos de metade das inscrições se registaram na Madeira comparativamente com as do Algarve foi a resposta global do Badminton do Continente. Nas provas realizadas nos respectivos locais verifica-se que no Algarve participaram 76 atletas da sua zona e na Madeira participaram 95 dos seus atletas o que para o número total de filiados em cada uma das duas zonas se constata um número bastante reduzido de jogadores filiados pela Madeira na participação nos “seus” Campeonatos.Como situação bem demonstrativa desta não adesão à participação no Torneio da Madeira temos a zona Norte que levou 39 atletas ao Sul do País no Torneio do Algarve e agora nem um à Madeira. Também é muito estranho o que se verifica nos Açores, mais propriamente em S. Miguel. Existem 274 atletas filiados, no total, e partindo do princípio que a maioria são não seniores, constata-se que não há um único atleta inscrito nem na prova do Algarve nem na da Madeira. Novas perguntas surgem por isso. Será que o número elevado dos atletas dos Açores não têm o mínimo de qualidade para participar nestas provas? Será por falta de condições económicas que não se deslocam para fora da Ilha de São Miguel? Há decerto razões para todas as dúvidas aqui colocadas. Concluindo e resumindo: Tudo o que se verificou com a realização destes Campeonatos na Madeira merece no mínimo uma reflexão por parte de toda a estrutura da modalidade. Com muito diálogo e participação global aparecerão decerto as melhores soluções para melhorar esta situação e que, no futuro, o sistema competitivo possa satisfazer convenientemente o maior número de atletas e clubes de Badminton, quer eles sejam do continente ou das ilhas. Haveria decerto muito menos interrogações se os dirigentes associativos e federativos e muitos dos que se encontram mais ligados à modalidade dessem mais informações e esclarecimentos e manifestassem as suas opiniões nos diversos blogues existentes. Com mais informação e troca de ideias surgiriam decerto igualmente melhores soluções para outros problemas que a modalidade tem, no fundo para toda a gestão da modalidade. Aplaudo sinceramente e de novo as intervenções proferidas pelo Dr. Horácio Gouveia e Cosme Berenguer para que brevemente se pronunciem também sobre outros temas bem importantes da modalidade. Pelo facto das suas situações actuais, enquanto dirigentes, o Dr. Horácio Gouveia (como presidente da ABRAM e da AG da FPB) poderia apresentar as suas ideias relativamente ao estado actual e futuro da modalidade e especialmente sobre a sua Associação Regional e a possibilidade de a estrutura do Badminton passar a ser substituída por Associações Zonais e o Cosme Berenguer (como presidente da Direcção da APTB) poderia pronunciar-se sobre esta sua Associação de Classe, a de Treinadores de Badminton, que embora criada há já algum tempo ninguém tem conhecimento da sua actividade (se é que a tem) sabendo-se apenas que se faz representar regularmente nas Assembleias Gerais da Federação apresentando os votos a que tem (?) direito. Que a atitude destes dois dirigentes em prestarem as suas opiniões no Blogue do João Boto seja seguida por outros elementos com igualmente responsabilidades no panorama do Badminton nacional, são os meus sinceros votos em prol do desenvolvimento da modalidade. Este meu blogue (
http://josebento00.blogspot.com) encontra-se igualmente ao dispor destes e demais elementos que decerto também gostariam de ver o Badminton num plano bem melhor do que o actual.
José Bento